O Contexto Importa – Alfonso Aguiló [tradução de Almir Gasquez Rufino]

Apresento aos leitores outra interessante reflexão de Alfonso Aguiló, nas palavras do nosso colaborador Doutor Almir Gasquez Rufino, que fez a tradução do espanhol.  Vejam também, ao final, o link para o vídeo.

Alfonso Aguiló

O contexto importa

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2007, às 7h51 da manhã.  Hora do “rush” numa estação do metrô na cidade de Washington. Um músico toca violino vestido de jeans, uma camisa de manga comprida e boné de beisebol.  O instrumento é nada menos que um Stradivarius de 1713. O violinista executa peças magistrais durante 43 minutos. É Joshua Bell, um dos melhores intérpretes do mundo, nascido em Bloomington, Indiana, em 1967. Três dias antes havia lotado o Symphony Hall, de Boston, a 100 dólares a poltrona mais simples. Não é que tivesse caído em desgraça em tão pouco tempo, senão que estava protagonizando um experimento de iniciativa do jornal The Washington Post: comprovar se as pessoas estão preparadas para reconhecer a beleza num contexto inesperado.

Leonard Slatkin, diretor da Orquestra Sinfônica Nacional dos Estados Unidos da América, havia vaticinado que nesse experimento o músico arrecadaria uns 150 dólares e que, da multidão de pessoas que passaria diante dele, ao menos uma centena se deteria em círculo, absorta pela beleza, e depositaria alguns trocados na caixa do violino deixada aberta no chão. Mas não foi o que aconteceu.

Joshua Bell, o violinista, encantado com o desafio, aceitou tocar no Metrô; tampouco hesitou em levar seu violino Stradivarius avaliado em 3,5 milhões de dólares. O artista e ex-criança prodígio começou seu recital de seis melodias de diversos compositores clássicos na estação L’Enfant Plaza, epicentro da cidade de Washington, em meio ao fluxo de pedestres que se dirigiam ao trabalho.  Iniciou pela Partida nº 2 em Ré Menor de Johann Sebastian Bach e prosseguiu com peças como Ave Maria de Franz Schubert e Estrellita por Manuel Ponce.

Em 43 minutos, haviam passado diante dele centenas de pessoas, porém somente 27 delas lhe deram algum dinheiro; a maioria nem sequer parou. No total, arrecadou 32 dólares e 17 centavos. Não se formaram círculos e apenas uma mulher o reconheceu. Com esse dinheiro não poderia comprar nem mesmo uma entrada das mais baratas para o concerto que havia dado três dias antes. “Era uma sensação estranha, as pessoas me ignoravam”, declarou Bell mais tarde. “Habitualmente me incomoda que as pessoas tussam em meus recitais ou que toque um telefone celular; no entanto, na estação do Metrô me sentia estranhamente agradecido quando alguém depositava alguns centavos na caixa do violino”.     

A apresentação, planejada por Gene Weingarten, editor do jornal, foi completamente filmada e objeto de publicação na edição do domingo daquela semana. A pergunta dirigida aos leitores era a seguinte: o talento e a beleza são capazes de chamar a atenção num contexto banal e em hora inoportuna?

A realidade é que decorreram três minutos até que alguém notou o som de uma melodia proveniente da estação subterrânea do Metrô. Um homem de meia idade foi o primeiro a desviar o olhar do chão por alguns segundos e direcioná-lo para Bell. Logo depois o primeiro dólar foi arremessado à caixa do instrumento. Após seis minutos alguém decidiu encostar-se numa das paredes da estação para por um momento apreciar a música. Somente uma pessoa deteve-se vários minutos a escutá-lo. No total, apenas sete pararam para ouvi-lo. Ninguém reparou quando terminou de tocar e se fez silêncio. Não houve aplausos e nem reconhecimentos.

A conclusão do jornalista foi a de que os cidadãos de Washington ao menos por um momento reafirmaram o ditado de que a beleza está nos olhos de quem vê e nos ouvidos de quem ouve. Ou ainda aquele outro de que o hábito não faz o monge, mas bem que o ajuda.

Parece que não temos dificuldade de prestar atenção apenas aos assuntos divulgados pelos meios de publicidade e avaliados por critérios cujo acerto não questionamos. Assim, passamos diante do sublime e não o apreciamos. Custa-nos reconhecer o talento de alguém num contexto inesperado. Estamos perdendo muitas coisas valiosas porque apenas esperamos encontrá-las de acordo com parâmetros predefinidos.

Talvez devamos nos empenhar mais em reconhecer o valioso ali onde está, evitando excessivos prejulgamentos. Aceitar a verdade, venha de onde venha.  Apreciar o que é bom, embora proceda de quem não nos parece simpático.

E, por outro lado, talvez devêssemos também compreender melhor que, quando se trata de avaliar as coisas de valor, o contexto importa, e muito.

Fonte:

http://www.interrogantes.net/Alfonso-Aguilo-El-contexto-importa-Hacer-Familia-n0-228-10II013/menu-id-29.html

Acesso em 18 de junho de 2013.

vídeo no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=RPAs08Z7D8A

2 comentários em “O Contexto Importa – Alfonso Aguiló [tradução de Almir Gasquez Rufino]”

  1. Muito legal, gostei muito da exposição. Sou levado a crer que infelizmente não recebemos luz para pensar dessa forma. Acredito que muitos talentos são perdidos ou ficam no anonimato devido ao fato do avaliador não ter a sensibilidade necessaria para salvar e tornar util certas pérolas.

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